Leituras

A extensão rural no Brasil, desde seu início, refletiu as relações de poder e as lógicas de desenvolvimento dominantes. Entre 1948 e 1956, sua prática se baseava no modelo clássico, com o técnico como figura central e o agricultor tratado como um receptor passivo. O objetivo era aumentar a produção através de crédito supervisionado e pacotes tecnológicos, desconsiderando a vivência e os saberes dos agricultores.

De 1956 a 1967, o modelo difusionista tentou alcançar pequenos produtores, mas manteve uma abordagem vertical. Nesse período, o agricultor continuava a ser convencido a adotar tecnologias “modernas”, enquanto sua cultura e conhecimento eram relegados a segundo plano. Como diria Paulo Freire, faltava o diálogo genuíno e a construção compartilhada de saberes.

Entre 1968 e 1978, a Revolução Verde intensificou esse distanciamento. Máquinas e insumos químicos foram apresentados como solução universal, mas o preço foi alto: degradação ambiental, êxodo rural e enfraquecimento das comunidades do campo. O agricultor deixou de ser sujeito para se tornar um meio para atender aos interesses da indústria. Nesse contexto, a educação foi instrumentalizada para domesticar, e não libertar.

Com a redemocratização, surge a oportunidade de um recomeço. A partir de 1985, inspirada por movimentos sociais e práticas educativas transformadoras, a extensão rural começou a adotar uma abordagem dialógica e participativa. Em 2003, a PNATER consolidou o protagonismo do agricultor familiar. Agora, a extensão não é mais sobre impor, mas sobre construir junto. Agricultores e extensionistas se tornam educadores e educandos, partilhando saberes para promover a agroecologia e a cidadania.

Como diria Freire, “ninguém educa ninguém, ninguém se educa sozinho, os homens se educam entre si, mediados pelo mundo”. Na extensão rural, o campo se transforma em um espaço de diálogo, ação e reflexão, onde florescem tanto a terra quanto as pessoas.

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